Jonas, assim era conhecido o velho pescador, um contador de estórias do mar, já com seus cabelos grisalhos, o rosto enrugado, a pele dourada pelo tempo, um olhar cansado e uma voz suave como a brisa que soprava n’aquele momento. Um ícone na velha colônia de pescadores , próximo ao forte de Copacabana. Todos o conheciam e sempre havia gente ao seu redor para ouvir suas estórias.

Foi a muito tempo, eu era muito jovem, tinha meus 25 anos quando estava em mais uma jornada pelo mar na minha velha trainera, batizada de Yemanjá minha eterna protetora , pescava um pouco além das ilhas Cagárras , a noite já caia e o tempo começou a mudar muito rápido, logo percebi que haveria perigo então tratei de levantar minha rede pra cair fora dali , o vento começou a soprar forte, as nuvens fecharam o céu como uma cortina imensa de fumaça, tudo era negro, a lua foi engolida pelo breu e o mar começou a remexer, ainda faltava muito para chegar a praia de Copacabana onde costumava ancorar meu barco, as ondas batiam muito e minha embarcação balançava demais, eu já tinha muita experiência no mar mas não era o suficiente, a sorte contava muito nessas horas e nesse dia ela me faltou, sem que eu esperasse uma onda gigante virou meu barco e me jogou para o mar, nadei desesperadamente em direção a praia, chovia forte, ventava muito, fazia frio, era uma escuridão só, podia ver apenas de longe os pontos de luzes que iluminavam a cidade, continuava a nadar e a impressão que tive é que estava cada vez mais longe da terra, aquilo foi me deixando nervoso, comecei a perder as forças, o mar batia muito e as vezes acabava por beber água, tudo isso ia me debilitando, comecei a rezar, a implorar a Deus, aos santos, a Yemanjá, minha Santa protetora, suplicava uma única ajuda pois não queria morrer d’aquela maneira, passou-se algum tempo até que perdi os sentidos por alguns segundos, voltei a tê-los mas estava como se estivesse dopado, relaxei no mar, onde pensei que seria meu túmulo, até que algo estranho aconteceu, senti como se fossem dois braços se erguerem do fundo do mar e me sustentando levava-me em direção a praia, não tive forças para olhar o que me ajudava, só tive a certeza de uma coisa, algo divino estava ali para atender ao meu chamado, percebi que estava chegando a beira da praia, aquela força misteriosa continuava a me carregar nos braços, saímos da água em direção à areia fofa, foi quando fui colocado de forma bem carinhosa no chão, consegui respirar fundo e ao mesmo tempo percebi que ainda estava vivo, ainda meio inconsciente virei o rosto em direção ao mar e vi que a força estranha que tinha me salvado era Yemanjá, a rainha do mar, a protetora dos pescadores.

As pessoas que estavam ao redor de Jonas ficaram emocionadas com sua estória, Jonas terminara de contá-la e as lágrimas escorreram pelo seu rosto já maltratado pelo tempo, ele pegou seu fumo de rolo, acendeu e colocou-o em sua boca, levantou bem devagar apoiado em sua bengala, virou-se para o mar e olhou fixamente para o horizonte balbuciando as seguintes palavras: – Parece apenas uma estória de pescador mas só quem viveu esse momento sabe que a verdade vai muito mais além do que isso.